Há momentos em que confiar em Deus parece mais difícil do que deveria. Não porque a fé acabou, mas porque os desafios da vida superam os nossos limites.
Então nessa hora de profunda agonia, buscamos algum caminho para nos libertar da aflição ou dificuldade que tanto nos incomoda.
E, para fugir do incômodo do problema, começamos a acreditar que nossas ideias são muito melhores do que apenas confiar em Deus.
A verdade é que crer em nosso conhecimento nos ajuda a ter a sensação de segurança e paz, mesmo que isso seja apenas uma ilusão.
E você, alguma vez já pensou que, com essa atitude de autoconfiança ou autoengano, pode estar substituindo a fé na providência divina pela força do nosso braço?
Se neste momento você está tentando resolver algum desafio, não o faça antes de ler este artigo.
Aqui vamos conversar sobre atitudes que podem nos aproximar mais da confiança de que Deus está no controle de tudo.
Por que você acha que é falta de fé, quando na verdade é cansaço?
A maioria das pessoas que se veem sem saída para um problema dificil acreditam que abandonaram a fé. Mas isso não é verdade, pois se analisarmos bem de perto, percebemos que elas oram, leem a Bíblia e tentam fazer as escolhas corretas.
O problema, portanto, não é o desinteresse espiritual, mas o cansaço.
Geralmente, essas pessoas estão cansadas de errar, esperar e não saber se estão ouvindo Deus ou apenas tentando se proteger do turbilhão de sentimentos que as afligem.
E, nessa situação, quando o cansaço se instala, confiar deixa de ser um movimento natural e começa a parecer um grande risco.
Diante desse conflito, a primeira pergunta que vem à mente é: e se eu esperar e não der certo ou não acontecer nada?
Daí, planejar vira uma forma de aliviar a ansiedade, ainda que essa atitude não seja suficiente para trazer a paz tão desejada.
E é justamente nesse alívio momentâneo que o papel do planejamento começa a mudar a direção da nossas ações para longe do plano de Deus. O que costuma passar despercebido:
Quando o planejamento vira um refúgio para a ansiedade
É claro que não devemos acreditar que planejar é errado, assim como organizar uma agenda de projetos e prioridades não é falta de fé.
Na verdade, o conflito começa quando o planejamento deixa de ser ferramenta e passa a ser refúgio emocional.
Isso costuma acontecer quando:
- o plano precisa dar certo para que haja tranquilidade;
- a ideia de esperar gera mais angústia do que segurança;
- a pessoa sente que, se não controlar tudo, algo ruim vai acontecer.
Nesses momentos, planejar já não é apenas prudência e sensatez, mas um instrumento de defesa.
E confiar em Deus, nessas situações, parece difícil porque isso implica abrir mão de garantias, inclusive, aquelas espirituais que construímos ao longo do tempo.
E quando isso se prolonga, algo ainda mais sutil começa a acontecer:
O peso de achar que quem tem fé precisa ter certeza de tudo
Enquanto estiver na sua mente a falsa cobrança de que confiança em Deus significa ter certeza de tudo, continuará vivendo esse grande cansaço na vida.
Isso porque essa exigência interna nos leva a acreditar que só devemos decidir e agir quando estivermos certos dos resultados. Queremos com isso a segurança de que não estamos errando de novo.
No entanto, a imposição de executar um projeto infálivel acaba transformando a confiança em uma tarefa emocionalmente exaustiva. É como se precisássemos fazer tudo corretamente, com clareza absoluta sobre o próximo passo e sem hesitação.
Mas isso não é possível, porque nossa confiança não funciona com exigências internas, e sim com descanso e paz interior. Com o estado de espírito de que estamos fazendo a nossa parte, e Deus, a dele.
Se essa relação não for assim, no lugar da tranquilidade carregamos o peso da responsabilidade espiritual que é a de confiar e se entregar.
Essa dinâmica não é nova, pois a encontramos de forma muito clara, na própria narrativa bíblica. Confira:
O que Isaías 30 nos ensina sobre o medo de esperar em Deus
Em Isaías 30, encontramos esse exemplo de desconfiança em Deus quando o povo busca o Egito como apoio. Podemos interpretar isso apenas como rebeldia, mas já imaginou que existe outra leitura possível: o medo de sofrer por não ter buscado ajuda.
Isso porque o Egito, para eles, representava previsibilidade, força militar e alianças claras, portanto, a segurança que eles tanto precisavam.
Por outro lado, confiar em Deus exigia esperar. E esperar sem garantias visíveis.
Talvez o erro ali não foi rejeitar Deus conscientemente, mas tentar evitar mais perdas, mais inseguranças e mais tempo sem uma resposta concreta.
Essa tensão sobre esperar em Deus ou não continua atual em nossas vidas. Embora muitas vezes não enfrentemos um inimigo visível, como o povo de Israel enfrentou, ainda sofremos com a incerteza do que devemos fazer.
Por que descansar e entregar o controle parece tão perigoso?
Para quem viveu muito tempo resolvendo tudo pelo próprio esforço, descansar pode parecer perigoso. Uma vez que esse descanso pode sugerir:
- perda de controle,
- atraso,
- descuido,
- risco.
Por isso, em muitos momentos, confiar em Deus é mais difícil do que planejar e agir por conta própria. Uma vez que tomar alguma atitude dá aquela sensação de estar fazendo algo, ao passo que descansar exige aceitar que nem tudo depende de nós.
E esse é um grande desafio para quem está acostumado a resolver tudo sozinho ou está cansado de sofrer porque a espera mexe com nossos medos mais profundos.
Apesar da dificuldade de ter paz diante dos desafios, é possível se entregar aos processos quando estamos fazendo a nossa parte, nem que seja uma simples oração.
O que significa descansar em Deus na prática e sem cobranças
Talvez valha refletir que, às vezes, o problema não seja falta de fé ou de confiança em Deus, mas o excesso de peso e cobranças que colocamos sobre ela.
É comum ouvirmos que quem tem fé acerta sempre, decide rápido e não falha espiritualmente.
Quando entendemos assim, confiar exige muito esforço porque ao ignorar o plano espiritual, só enxergamos os resultados sob as perspectivas humanas.
Em Isaías 30:15, por exemplo, encontramos uma frase fundamental que costumamos citar, mas pouco vivenciar:
“Em vos converterdes e em sossegardes, está a vossa salvação; na tranquilidade e na confiança, a vossa força, mas não o quisestes””
Descanso aqui não é passividade, mas a interrupção da inquietude pelo medo de esperar em Deus. Esse seria um modo mais tranquilo de mudar toda a nossa percepção sobre ter fé e confiança.
Um convite para acalmar o coração e parar de se cobrar
Se confiar em Deus parece ser mais difícil do que planejar, talvez isso não seja um sinal de distância espiritual, mas de exaustão.
E esse esgotamento não se resolve com mais cobrança, mais esforço ou mais planejamento, porque ele pede pausa.
Essa trégua tão necessária não é para desistir da vida, mas para parar de se punir internamente.
Esse texto não é um chamado para fazer diferente agora. É apenas um convite para observar sua situação com mais honestidade e sem desespero para chegar a uma conclusão.
É importante refletirmos que, às vezes, confiar não começa quando soltamos o controle, mas quando paramos de nos acusar por ainda não conseguir soltá-lo.


